Hable Con Ella

01/02/2006 08:58
"And so it is..."

...Repousa o cansaço, a solidão, a espera, o tédio, a saudade do tempo. Sozinho, evito os momentos que posso me descobrir só. Não sei se a vida que criei para mim me satisfaz, ou melhor, nesses momentos descubro que não. Chega a consciência da mediocridade, da insignificante vida a que me apego... O que me salvaria?, uma poesia, um abrigo antiaério, um beijo...


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Não me lembro de me sentir tão em paz. A agitação das crianças não me incomoda nem um pouco e, ainda, me tira meios sorrisos disfarçados a cada dez minutos. Percebo a vaga sensação de medo - o medo ancestral de se afastar aos poucos e, finalmente, partir - típico dos navegadores do mundo.

Estou sentada na poltrona de veludo azul do canto, ao lado dos meus livros, lugar que escolhi para ler, mas que acabou vencido pela cama. O vem e vai das crianças contrasta com minha pouca energia, observo sem inveja, olho a minha mão a folhear o livro e constato o tic tac corrosivo dos anos que passei aqui, lembro: A esperança é um dever – ou seria um de vir? Minha memória me trai.

Troco as pernas, descruzo-as para acordá-las, me rio da minha condição absurda. Vestido largo, corpo que não me pertence. Viro as páginas do seu livro que só meus dedos lêem. Fito cega.

A mente me distrai e me senta no meio deles, no chão com o joystiIck nas mãos. O passado ressurge, rolo de rir quando perco outra vez. Jogam-se em cima de mim e gritam, gritam quando ganho. Grito também. Aperto os olhos com força. Ecos de uma velha canção que fala da felicidade que nunca mais tornarei a ter. Não me lembro de quando a solidão veio me acompanhar.

Meus irmãos discutem cinema e política como sempre, eu me abstenho como nunca. Sinto o cheiro do mar e me levanto, caminho sem pressa até a varanda. A solidão vem comigo. Meu cunhado, com sensibilidade, percebe meu olhar e aponta um veleiro branco e distante. Não quero o binóculo, obrigada. Prefiro assim, sem foco, sem detalhes.

Volta e meia alguém senta pertinho de mim, fica a me velar. Finjo que ouço, mas já parti, navego por portos desconhecidos. Aliás, sou a donzela, espero um herói coberto de sangue de piratas, que vem no seu veleiro branco.

Meu espírito de bruxa dança invisível ao lado do meu corpo podre, embalado pelos gritos. Hipnotizada pela orgia oceânica, sinto a névoa sinistra e perfumada do vitorioso. Na varanda, ilhada de vozes, flutuo como espuma no quebra mar, alma da vida, acordo para a eternidade singular nos braços dele, girando. A nitidez como que vejo, me cega para o que há aqui...

Um beijo na face me desperta com sorrisos. Troco imediatamente todos os anos de sonhos por aquele mããããããããe! sonoro que parece não precisar de fôlego. Sinto saudades nos braços que me abraçam, nas pernas que lhe sustentam em meu colo. Ah, que cansaço insuportável!

Ganho um pedaço de bolo na boca, suponho o último. Como bem devagar - memorizando, dividido em pedacinhos, oferecidos na boca com papéis divertidamente invertidos. Ele sorri, como se soubesse o que estou a pensar.

E penso em conceitos, princípios, caráter... Marcas que devo ter deixado em meus filhos...

Mas espero realmente é que tenham comigo aprendido a sonhar.

Sua Ana.


Casamento, lembranças e outras coisas fúteis

Construímos o tempo que passamos juntos, nossas mãos podem tocar o acúmulo das coisas vividas e amontoadas. Casamento é um namoro que se materializa no sinteco arranhado, no sofá tingido com macarrão alho e óleo ou no lençol que vai desbotando noite a noite... Na banguça dos primeiros dias na (nossa!) casa nova, no orgulho de ver as coisas se ajeitando, nos móveis que parcelamos, na cartinha do spc - nós vamos construindo o nosso tempo - nas mil lembranças do cotidiano, que marcam eternamente as coisas fúteis.
enviada por mim






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