Hable Con Ella

27/08/2005 02:16
Qualquer filosofia consola. Então, vamos a ela.

Filosofia de botequim
Primeiro tomo
(com direito a trocadilho, por favor).

Suicídio, capítulo II

Estou dividido entre o tédio de estar vivo e o vazio de não estar.
Parece que tanto faz.

Mas não é apenas tédio, é a insignificância.

Tenho que trabalhar, ligar pro meu pai, morar sozinho, ter um carro, tênis novo, arranjar uma namorada, ter filhos, ter um terno... Tenho que viver para suportar essas coisas e depois, ainda por cima, agradecer.

Apostamos tudo no vestibular, é o nosso futuro. Perdemos a namorada por isso, perdemos a aposta.

Suportamos a faculdade nas festinhas abafadas e nos braços de qualquer pessoa amada.

Corremos atrás de um emprego. Mas, na verdade, dá um alívio quando chega o fim-de-semana, agüentamos a vida nas férias que tiramos dela.

Onde somos chateados pela tevê, pela repetição de lugares ou pelo preço do sex on the beach. Aquela peça no teatro que tomei coragem de ir já saiu de cartaz.

Calculamos o tempo que falta para a aposentadoria. E aposentados esperamos a morte, vendo os netos se afligirem com o vestibular.

Até a morte, o evento mais eloqüente do meu dia, parece entediante demais...

Tanto faz se me calo ou se argumento por horas a fio, se pego em armas ou dou uma rosa. Parece que qualquer coisa que a gente faça é digna do esquecimento.

A maior aflição de hoje é o esquecimento de amanhã, o meu maior feito de amanhã pode ser desprezado na semana seguinte.

Então, sentirão falta de quê? Qual a eloqüência da morte?... NENHUMA. Ser esquecido, ou caluniado, ou canonizado, tanto faz.
Tanto fez.

A mediocridade dos dias esmaga nossos ossos, não suportamos o peso da consciência de sermos frágeis e insignificantes. Tudo que fazemos é transitório. Tudo que queremos é eterno. Nada satisfaz. Nem a morte.

Nada faz sentido, nem a vida. Nunca fez, isso desola.

As pessoas em busca de algum sentido latente aceitam a qualquer deus, uma predestinação ou uma alma gêmea para não precisar pensar em quem é. Simplesmente obedecem o "põnha-se no seu lugar", atuam nos seus papéis de bom aluno, bom pai, boa mulher, bom empregado, sim, senhor. E adormecem com essa falsa paz. Embora tenham medo do escuro.

A vida não ter sentido é, por outro lado, libertário. Porque ou vivemos aquilo que criaram para nós, ou escolhemos o que vamos fazer de nossas vidas.
E assim a mediocridade, o tédio e a insignificância não são mais necessários, nem o suicídio.


“Viver é bom, partida e chegada,
solidão que nada.”

Cazuza

vou terminar esse texto depois...
enviada por mim






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