Hable Con Ella

07/10/2004 04:24
Vestígios

Rabisco idéias em mil retalhos. Meto-os nos bolsos.

Ou melhor, cubro-me com essa estranha colcha de retalhos
e durmo.
Sonho com meu livro de fogo e sombra
e quando acordo esqueço-me dele.

Meus textos são isso,
apenas vestígios de um livro fantástico.

E, por isso, fico angustiado.
(Tenho memória intermitente, sei disso.
Mas sinto-me péssimo quando me lembram disso.)

Tenho mil textos, porque
agora pensar nela é inevitável.
Lembro-me dela entre fogo e a tora,
nas minhas horas que se consomem em sua espera.

Quando ela passa transbordam mil dórremis e fassoladós
e estabelece meu movimento estroboscópico no seu corpo desenhado.

Essa desconhecida
deixou todas as segundas com gosto e textura.

Esbanjou sorrisos
e decretou:

1º - Fica permitido esticar o fim-de-semana
sempre que a conversa for boa e a companhia indelével.

2º - Toda pessoa amável tem direito a ser amada incondicionalmente
pelo desconhecido apaixonado num bar qualquer da vida!

3º - Todo apaixonado por tudo merece um amor desconhecido.

Assim cosemos um retalho com nossa vida e saliva.

Aninha
esse texto ainda vai mudar e crescer...
Amar é sempre físico?

Sim.(Segundo Freud)
Sempre libido.

Amores
têm aromas
de amantes
de pele
entreaberta e úmida.

Mery,
ela é Música.


“Leva o vulto teu.

Que a saudade
é o revés de um parto.

A saudade é arrumar o quarto
do filho que já morreu.”

Chico

Ontem fizemos o pôr-do-sol, pela primeira vez, juntos. Fizemos errado. Ele sempre se põe, é verdade, mas nunca igual a esse dia. Teve nossa ajuda, uma expectativa e um suspiro. E dessa vez ele hesitou e quase não se foi. Quase.

Conversamos sobre nossas vidas juntos. Essa estranha caminhada sobre a Terra. E decidimos muitas coisas.Tudo errado, mas decidimos.

Ela e eu. Deixamos de ser: nós, sempre, certeza.e voltamos à mediocridade: eu, efêmero, dúvida.
Não somos mais verbos:
amamos
desejamos
gozamossem fim entre a pele e alma

Agora, somos um gosto de morte entre margaridas e girassóis roubados, no poente errado.

Clarice
Passamos uma noite inteira juntos, conversamos e fizemos roteiro de cinema, uma trilogia dessa vez. No fim ela leu suas poesias, de sete anos atrás, quando começamos a ficar. Mas fiz de conta que não gostei, só para irritar. E roubei uma.
Minhas personagens se encontram
em lugares distantes,
sempre. E errantes.

São contadoras de histórias,
fazedoras de contos.
Fazem de conta
que chegou ao fim.

Sherezade, das Mil e Uma Noites,
não se daria conta
de contar
uma só noite sem fim.

São dessas que perdem a ponta
e o fio da meada,
quando (de quantas em quantas)
gozam um e outro e depois dizem sim.
Mas é o fim.

Acreditam nisso
feito duas tontas
e não se dão conta,
que são personagens
desse conto sem fim…
enviada por mim






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