Hable Con Ella

23/09/2004 22:43

Infinito
Fiz uma coleção de textos sobre minha relação com a escola.
Coleção Escola, não recomenda para estudantes.

eXatas

Alguns professores não aprendem. Por isso, não ensinam.
Enquanto eles queriam saber qual o valor de X e quem é o Y, eu me perguntava quem sou eu e qual o meu valor.

Eles vinham armados de equações mirabolantes, com seus resultados (quase) exatos. Às vezes o X era 8, depois era 80, ou qualquer coisa entre as extremidades do infinito. O que, aliás, não passava de um 8 deitado. Uma exatidão estranha, que variava, imprevisível, incontável, imensurável e inexistente. Eu era assim também.

Sentia uma infinidade de coisas exatas. O amor, o tédio, a paixão, o pesar, a euforia, a solidão, a paz, a angústia, o tesão, a alegria... Era exatamente isso. Coisas inexatas. Eu me tornava uma incógnita a cada dia. Todos nós éramos x.

X poderia ser oito. Mas oito o quê!? X podia ser qualquer número e, pior, o número podia ser qualquer coisa. X era Tudo. Oito era Qualquer-coisa. E isso para mim não parecia muito EXATO.

Por isso fiz mil perguntas em sala de aula. Oito maças ou oitenta vacas? Oitenta beijos ou oito patas? Tanto faz, me diziam. Para a equação, para prova, para o pedaço de papel tanto faz. Mas a equação, a prova e o papel não se questionavam, não sentiam, não se angustiavam. Eu não iria perder meu tempo atendendo os desejos de objetos sem desejos. Tanto faz para eles e os professores, portanto não sou eu que vou ficar procurando o valor de X! Ele não é nada. Inexiste.

Então, parei. Percebi que as respostas não estavam ali. E o mais importante, eles faziam as perguntas erradas. A escola nos transformava em números e variantes, para suas equações de lucro isso já estava bom demais.

Meu número era 32 na chamada. 32! ... 32! ... 32! ... Trinta e dois faltou? Não, ele está ali. Tiago!, por que você não responde?! A Senhora não me chamou, eu sou Tiago, não sou um número. Se não responde é porque faltou. O que, professora? Você não está aqui! Bem, se você diz que eu não-estou aqui, amém... Tiago, para aonde você pensa que vai, não pediu licença?! Vou não-estar em ouro lugar, se você não sente a minha presença, não vai extranhar minha falta. Menino, o que você vai fazer? Vou resolver isso, cuidar da minha [in]existência.

A escola me fazia sentir o peso de não ser nada. De não influir na minha formação, de não escolher o que eu seria, ela queria que eu fosse qualquer-coisa, não-estar, um-número, repetidor-de-coisas, calculador-de-equações. Eu não queria isso, ser uma variável X.

Resolvi que não andaria feito um X pelas ruas, podendo ser ou ou João, ou Iracema, ou X ao quadrado, ou Y ou Z, quem sabe até o Tiago (para meus amigos). Para mim esse era o X da questão (com trocadilho, por favor!). E isso não ensinam na escola. Nem aprendem.
enviada por mim






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