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18/06/2004 06:59
Luciana, carta longa, sei que só você vai ler. Aliás, concluí o diálogo com a Camila, lá em baixo, e sei que só você vai ler também. Beijos, Ti. PS.: Ainda vou mudar coisas nesse texto, mas já está bom para ser publicado.
Sobre Deus
Niterói, 27 e 28 de outubro de 2003.
A revolução consiste em amar um homem que ainda não existe.
Albert Camus
Deus,
Hoje já me confessei com o Senhor, acho que fiz errado, me disseram que só podemos nos confessar com os padres, pois fizeram curso de ouvintes de pecados. O Senhor não fez o curso, eu sabia disso, creio que seja melhor assim, sem o curso o Senhor viu menos pecados que um padre bem treinado veria. Depois de me despedir da sua presença, lembrei-me de uma coisinha à toa que fiz, e fiquei com vergonha de voltar, esse entra e sai no céu deve ser ruim para sua privacidade, então resolvi escrever.
Leia quando o Senhor estiver sem pressa, se é que um dia o Senhor teve pressa de alguma coisa. Todos os deuses que conheci até agora fazem tudo rápido, de uma só vez. O Senhor não. Fez o Mundo em seis dias, a prazo, bem devagar, e depois ainda descansou. Eu, por outro lado, não consegui descansar, nem fiz o mundo. Meu pecado foi outro.
Essa madrugada eu roubei emprestado o carro do namorado da minha mãe. Estava aqui na garagem da minha casa há dois dias, sem uso, e me incomodava. Estava enfadado quando saí do cinema, fui a Galeria do Poste, voltei para casa, depois li um livro, mas me entediei de novo, folheteei minhas músicas, liguei o ICQ que não me animou, então resolvi sair de casa. Estava sem dinheiro e chovia muito, ou roubava o carro, ou me atirava pela janela. Uma das duas!
Tranquei meu quarto por dentro, despedi-me da sensatez dos meus livros, e pulei a janela! Não morri, mera simbologia para enterrar o medo... Para não fazer barulho empurrei o carro até a rua. O Senhor deveria ter visto, foi muito emocionante! Dizem que Deus é o tipo de gente que tudo vê, como se o céu fosse a sua casa, e os seus olhos seriam uma grande janela da Fifi, a fofoqueira. Mas não poderia ter certeza de uma coisa dessas, não consigo acreditar em tudo que me falam sobre o Senhor, por isso resolvi Lhe contar.
Como o Senhor sabe, ou deveria saber, não sei dirigir. Mas foi fácil descobrir o que era o freio e o outro pedal que serve para passar a marcha. Dirigir não é difícil, o Senhor deveria tentar um dia, já que quando esteve aqui na Terra os carros ainda não existiam. Irá gostar. Tinha que aumentar a marcha conforme o carro andava, isso me ensinaram, só não sabia que tinha que descer conforme a velocidade diminuía, por isso o carro morreu algumas vezes, fica a dica para o Senhor. Aprendi.
Era engraçado andar por Niterói, nunca tinha visto a cidade pelos olhos de um motorista. Os carros passavam por mim, me saudavam e piscavam o farol, que mania repetitiva. Estava escrito Nunca Dirigi, como se fosse um fenômeno sobrenatural, que transformou meu tédio em misticismo. Mas a repetição colocou toda a mágica a perder, os faróis que piscavam tiravam o sossego do anonimato.
Queria ficar quieto com meus pensamentos. Foi assim até que na Estrada Fróes, que liga Icaraí a São Francisco pela orla, houve o inesperado, apercebi que o meu farol estava apagado, pois aquela estrada é mais escura do que as ruas de Icaraí. Quando liguei, pararam com essa mania. Percebi então que a mania era minha. E o misticismo é o tédio esclarecido.
Sempre ligue os faróis à noite, outra dica para o Senhor em troca do que fez por mim, se é que fez alguma coisa naquela chuva toda. Parece que o Senhor ficou quietinho em casa de janelas fechadas. Obrigado, se o Senhor fez alguma coisa que impediu a minha morte, ou a de algum inocente, ou a minha prisão, e claro por ninguém na minha casa ter apercebido a falta do carro. Realmente precisei sair de casa daquele jeito. Tinha muitas coisas a pensar, e só um espírito livre pode descobrir a cura contra sua inquietude. Ou talvez um louco qualquer. Dirigi pela orla livremente.
Adorei a orla chuvosa de Niterói, ela tinha algo de eterno. Era interessante ver as mais antigas obras plásticas paisagísticas, as de Niterói ainda podem ser facilmente identificadas, já as do Rio não. Andei pela orla de Niterói, isso era redesenhar as primeiras obras plásticas brasileiras, e gostei da orla simplesmente por ser linda. Fiquei de carro para lá e para cá. Meus pensamentos iam e voltavam entre uma digressão e outra, e faziam considerações leigas sobre a mecânica dos carros. Sem conclusão alguma.
Foi impossível concluir um pensamento qualquer. Chegar ao fim de um texto era fácil, acabava o papel, a tinta ou a paciência, mas quem escreve não se acaba, continua a pensar e a viver. Por isso o abismo final de tudo quanto pensamos é o inesperado, abre-se noutra imensidão desconhecida. Essa inconclusão é a Condição Humana, suponho que o Senhor saiba disso, estamos sempre por-fazer.
E morreremos sem um ato final, sem a grande cena, sem mesmo sabermos e sem aplausos. A vida é sempre perder o início do filme e dormir antes do fim. Justamente quando começarmos um novo pensamento, sem concluirmos um pensamento qualquer seremos finados, e enterrados logo após. Por enquanto nossos ensaios, tratados, provérbios e poesias passeiam livres entre a orla e a vida, sem a obrigação de chegar a algum lugar.
Perdi a noção de tempo. Rodei muitos quilômetros, de acordo com o painel do carro, mas não cheguei a lugar nenhum. Hodómetros nada sabem. E o Senhor também não, pelo que me disseram para Você (posso chamá-lo de Você?) um minuto é mil anos e mil anos são um segundo, isso é estranho. Como alguém pode se confundir com aquilo que criou? Depois ainda quer que entendamos que existe tempo para tudo, está na Bíblia. Para tudo se acabar e nada se explicar, só se for. Melhor, ou o Senhor nada sabe, ou quem fala em Seu nome não sabe nada. De qualquer forma, a minha noção de tempo foi igual a sua.
Hodômetro é uma palavrinha feia, não sabia que ela existia, não fui eu quem inventou essa palavra por isso fico automaticamente perdoado ao usá-la. Existem palavrões e palavrinhas, ambos feios, mas a mediocridade e a moralidade só condenam os palavrões, isso é injusto. O que torna a vida menos bela são as palavrinhas. Há coisas que todos sabem, menos eu, ou Você. Isso é surpreendente. Minha amiga disse que essa palavrinha é muito difundida, todos os adultos a conhecem. É tão famosa quando termômetro. É por essas e outras sempre reconheço que tenho muito a aprender sobre o oculto e as coisas já reveladas. A orla serviu para pensar nessas coisas. Isso é, pensar em quase nada.
Antes de ir ao cinema da UFF, que fica na orla, tive uma conversa sobre Você. Apesar de ser um materialista histórico-dialético, creio plenamente na sua existência. Apesar de ser beato, crente bitolado, creio sem restrições na autonomia da carne. Isso é creio que Você onde quer que esteja não está cuidando dos assuntos terrenos, que Você que criou a vida também criou a morte, tal como agora estou vivo, um dia morrerei e virarei pó. Creio que Jesus e Você são a mesma pessoa, que nem mesmo Freud explica. Para Você que não entende sequer sobre o tempo, deve ser difícil entender isso. Ou melhor: é impossível para quem fala-em-seu-nome essas fofocas sobre Você. Sei que Você foi quem criou a carne e o sexo, e é espírito, logo entende de tudo.
Não acho contraditório, creio que há dois mundos separados. Um mundo imaterial, onde Você está, e um mundo material, onde estou, ligados apenas por Cristo vivo e material. Tudo que não o for Ele, não é Deus. Tudo quanto acontece na Terra explica-se pelas coisas materiais. Só isso. Cada um na sua, mas com alguma coisa em comum: Jesus. É fácil pensar assim, que Você não [quer] está[r] aqui... Eu também não.
Nasci e fui criado nessa Terra, adoro esse lugar, sou feliz, apaixonado pela Natália, amo meus amigos e amigas, minha família é uma coisa de outro mundo, no bom sentido. Amo muito meu pai, foi ele quem me fascinou pela sabedoria e por Você, e minha mãe é um exemplo de altruísmo. Mesmo assim não agüento mais, quero ir embora, e só tenho 24 anos. Imagino Você que não é daqui e já conhece esse mundo há milhões de anos
Viu de tudo pai matar filho, mãe trepar com o melhor amigo do marido, assassino de milhões ser adorado incondicionalmente por gente que desprezava o Seu amor. Esse mundo é uma sacanagem só! Às vezes, da boa, aquela sacanagem que você inventou é do bem. Por isso entendo muito bem que Você esteja no bem-bom, e quem quiser que creia em Cristo, pronto: estará com o Senhor! Você merece descansar, fez sua parte, por isso lhe amo tanto. Se quisermos - os humanos - um mundo melhor, temos que fazer com nossas próprias mãos. Mas quanta sacanagem rola nesse mundo. Não é fácil, Você já tentou, sabe que não é fácil. Então, gostaria que o Senhor me ajudasse.
Pelo menos uma coisa me conforta, o mundo não será perfeitamente da forma como eu quero. As coisas não andam tão bem quanto gostaria. Na verdade, as coisas não vão nem como Você gostaria. Então, Lhe pedir que tudo seja perfeito em nossas vidas, é pedir para que tenhamos mais regalias que Você mesmo não tem. Isso não é possível. E se o Senhor está bem, sem traumas, com um mudo que não é como você idealizava, eu também vou (sobre)viver bem.
Pode parecer pretensão da minha parte me comparar ao Senhor. Quero me explicar nesse ponto com dois enxertos. Foi Você quem começou com essa história. Primeiro fez o ser humano a Sua imagem e SEMELHANÇA e segundo Jesus (outro nome para Você) disse para sermos IGUAIS a Ele, Jesus é o Seu lado mais exagerado. Ele pode. Você também. E eu preciso me inspirar em alguém.
Sei que Você pensa muito nas pessoas que ama e quando esteve por aqui na Terra andava pela orla, essa madrugada fiz essas duas coisas. Pensei muito em três pessoas na Luciana, no Renato e no Leonardo. São as melhores pessoas que conheço. E na Natália, dela sei muito pouco ainda. E na Tati, muito distante, Presidente Prudente, que não tem sequer orla. No Guilherme, Você deve conhecê-lo como Panda. Elker, Victor, Daniele, Anne, Luiz Renato, Ana Paula, Luiz Cláudio, Cândida, Rafael, Viviane, Coroa (meu pai), Camila, Maisa, Aline, Darc, Rafael, Rachel Maria, Viviane, Clarice enfim... São algumas pessoas maravilhosas que conheço. Pecadores sim, mas pecadores-gente-boa. E como é bom pecar (se não fosse, não haveria tanta polêmica).
Mas apesar de ser pecador, meus pensamentos eram, como a Camila diria, puros como um feto. Flutuavam pela orla de Niterói, sem acidentes, apesar de trocar os pedais às vezes, e furar os sinais sempre na praia de Icaraí. Pensei mais sobre a Luciana. E na carta que ela me escreveu no meu aniversário. Muito linda. Ela falou de Você, Lhe agradece por tudo. E por outro lado só quero Lhe agradecer por duas coisas, ter criado todas as coisas, que não conheço, e por conhecer as melhores.
A Luciana regozijava-se na carta pela nossa amizade, que é bela. Instantânea, singular e silenciosa... Achamos-nos entre bilhões de seres que rodam nosso mundo, entre os milhões de acidentes reconhecemos em nós a compreensão, a tranqüilidade para continuarmos a caminhar estranhamente juntos pela orla da Terra. A quem devemos agradecer... Aos nossos pais, Que brega, ela disse. Ao Deus, por tudo. Mas ela simplesmente disse apenas escrevo a você a quem, aliás, devem-se muitos dos méritos por ser como é. Bonito isso.
Mas não é verdade. Claro que não sou responsável por ser quem sou. Sempre tive muita gente ao meu lado, muita ajuda, muitas vozes diferentes me formaram, minha vida é esse cântico. Tive em quem me inspirar. E sorte na vida, igual a todos os outros seres humanos, sou uma estranha combinação dos mesmos materiais que compõe todo ser humano. O que faz de mim diferente é tudo aquilo que faz de nós iguais: uma essência e meus acidentes.
Meus amigos têm algo em comum, e não sabem. Sempre encontro, descubro, crio, ou revelam-se, pessoas que querem de uma forma ou de outra melhorar. Talvez isso seja próprio do ser humano, ou seria sorte minha?, pode ser que simplesmente não seja assim. Todos esses meus amigos me ensinam a melhorar de uma forma especial, e sempre empresto a isso uma dimensão universal. Por isso acredito que o Senhor me considera um bom ser humano. Não posso lhe enganar, tenho defeitos (embora sejam mais claros para o Senhor do que são para mim, e são mais numerosos ainda para os padres, esses sim entendem sobre pecado), e ainda assim creio que serei salvo da morte. Mas se por acaso o existir outro céu, além desse que estamos, gostaria de poder levar todos meus amigos. É difícil imaginar um paraíso sem eles, minha família e minha amada, a Natália que fique claro.
Gostaria de Lhe contar sobre cada um dos meus amigos, sobre o Renato em especial. Assim como o Senhor, ele sempre esteve presente mesmo quando escolheu ficar distante. Ele me ensinou sobre a bondade. Pensei essas coisas dentro do carro e voltei para casa. Estacionar é muito mais difícil do que tirar o carro, digo: empurrar o carro para estacionar numa subida é duro. Os carros deveriam ser mais leves, ou as pessoas não deveriam ser tão possessivas, ou ainda eu deveria ter meu próprio carro. Está nos dez mandamentos: não roubarás. O Senhor não me pergunte o que meus pensamentos tinham de tão angustiantes a ponto de roubar um carro: eu não posso saber, se o Senhor próprio não sabe.
E não foi exatamente um roubo, porém sair com carro de outro sem avisar, sem saber dirigir, na chuva, deve ser pecado (mesmo se não estiver nos dez mandamentos). Praguejar a patrulha da PM também deve ter algum agravante. Mas fiz tudo com coração limpo. Têm coisas que revoltam, não dá para ficar calado. Deveria ficar, não consegui, era injusto demais os que os policiais estavam fazendo. Você sabe, ou deveria, e faria o mesmo. Pena que Você resolveu não se meter mais nas cosias terrenas, por isso não entrarei em detalhes.
Você deve ter acordado um dia e dito: eu também tenho o direito ao FODA-SE, modo de dizer claro, espero que tenha lido o texto do Millor sobre palavrões. Ele disse que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda-se!" aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta. "Não quer sair comigo? Então foda-se!". "Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!". O direito ao "Foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição Federal. Liberdade, Igualdade, Fraternidade e Foda-se. Você deve ter mais modos do que eu, e deve ter usado outros termos. Mas resumindo é isso aí! Não significa que Você não se importe, é que o Senhor já fez sua parte, agora é conosco. Amém. Espero que Você não seja moralista como me falaram. Senão estou fu#$%&*dido, e mal pago.
A quantidade de besteira que já Lhe falei, considerando-O um amigo, não está no gibi. Você entende gíria, não é? É que se o Senhor for moralista como afirmam e já mataram mulheres bruxas por causa disso, eu não vou ter tempo de vida o suficiente para me redimir. E se o Senhor não entende gírias como espalham por aí, quem então ouviu minhas orações? E as respondeu corretamente? Não foi Você?! Acho que andaram mentindo para mim, e foi sobre o Senhor.
Até que Você assim de pertinho parece mais gente boa do que dizem aqui na Terra. Esquisitão, mas gente boa. Afinal de contas de perto ninguém é normal, foi Caetano quem disse essa frase, Você sabe. Dizem que as pessoas não são normais de perto, pois se acham o centro de todas as coisas, e criam um mundinho para si. Ora, Você realmente é o centro de todas as coisas e criou um universo para Si. Isso prova que você não bate bem, o que é bom. Tem de ser o mais excêntrico de nós.
E como temos que seguir o Seu exemplo, sejamos esquisitões! E nada é mais esquisito que o meu grupo de amigos. Logo, todos iremos para o paraíso! Agora me dei conta de uma coisa: o paraíso é um grande manicômio, os normais ficam presos na ala dos infernos, pelo menos até que enlouqueçam. Ainda bem que eu não sou o chefe da Igreja. Primeiro pelo celibato, e também porque eu posso falar essas heresias e ninguém seguir. Amém, de novo. Já ele fala heresias e as pessoas o seguem. Uma pena, para Igreja um ato de amor é pecado. Para o Senhor eu sei que não, graças a Deus! Com falso trocadilho, por favor.
Poderia escrever horas sobre várias coisas que falam sobre o Senhor aqui na Terra, não farei isso. Agora já sei que quase tudo é inventado para manter o poder dos homens e não Lhe render honra e glória. Usam o Seu nome para engrandecer outros nomes sobre todos os seus amados, para oprimirem... O Senhor não se entristeça vou tentar mudar isso, com meus amigos e companheiros. A nossa revolta é pura, o grito da revolução é como choro o feto, que acaba de sentir o pesado ar do mundo. A poesia é pobre, mas a idéia é boa.
Sei que maior parte de seus fiéis é sincera, aprende errado, não é culpa dela. E as igrejas transformam os crentes em mendigos celestiais, romarias eternas de pedintes querem carros, casas, dinheiros caídos do céu. Mas Casa da Moeda não fica na Casa do Pai. Existe um senso-comum sobre Deus que foi impingido por instituições que mantém um estado geral de apatia e permite o mal correr solto, e deturpa por isso a fé em Cristo. Tenho certeza: revolucionar é necessário para salvar a carne e o espírito, e sua igreja (qual seja ela, e como for).
As igrejas querem que oprimidos amem seus opressores. Pedem para que vítimas de violência amem seus estupradores, isso nunca vai acontecer, e não se chama perdão: é injustiça. Creio que num mundo sem explorados e dominantes o amor terá um terreno mais fértil, como na parábola do semeador, a semente tem que cair em bom solo para dar frutos. Não sou um semeador, pois trabalho para preparar o solo e regar. Que meus amados semeiem. Que Você dê o crescimento.
Por agora é só, despeço-me, já com saudades de falar mais com o Senhor. Embora eu tenha falado mais do que Você, que indiscrição a minha... Mas Você me responde nas reticências, no silêncio. Meu poeta preferido diz uma coisa muito legal: As reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho. Ele é lindo, o Mário Quintana. Tem gente que usa reticências como que usa orégano numa pizza. Mas elas foram feitas para libertar, o ponto sim limita. E ponto. Fim. Prisão. Sem saída. Agora, pense bem... Reticências... Lindas... Livres... Leves... Tal como a vida... O Senhor participa com muitas reticências. Não sabia que um silêncio vale mais que mil palavras... É, digo a ela que a troca de silêncios era o único diálogo verdadeiro, o resto são monólogos intercalados...
Mas seu silêncio incomoda a muita gente, e por isso as igrejas renovam a fé nos rituais. Assim crêem mais na instituição, padre, pastor, líder supremo, ou coisa parecida do que em Você. O paradoxo é esse, crêem no padre por esse falar em seu nome, mas não lhe escutam diretamente. É paradoxal, para os fiéis Você se manifesta apenas nos rituais. Afastei-me das suas igrejas, e prefiro cometer meus erros próprios nessa carta a seguir os passos errados dos outros.
Com amor e fé
em Cristo,
Tiago de Paula.
enviada por mim
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