Hable Con Ella

03/08/2003 03:52
segunda edição:
LEILA BARRETO


A LEILA BARRETO escreveu um texto
e gentilmente me cedeu,
embora ainda não saiba disso
(AGORA ELA JÁ SABE).

Como o texto era bom,
resolvi fazer uma resposta,
na verdade, uma companheira do texto.

Temos, então, o Texto e a Resposta,
um dialoga com outro e vê no outro a razão de ser.

A LEILA BARRETO não aprova,
mas tenho certeza que esse amor proibido
encontrará aconchego aqui.

O Texto e a Resposta poderão viver juntos,
lado a lado, felizes para todo o sempre.



Resposta:

Eu gosto de criar textos. Escrever ou é uma necessidade, ou é uma escolha. Ou, ainda, as duas coisas, como um vício, que é uma escolha e torna-se uma necessidade. Poderia ser uma terapia ou um divã. Mas, na verdade, escrever é qualquer coisa,

que liberta (falsamente) os sentimentos, depois aprisiona-os numa página, massacra, consome e dá indigestão. É secar uma lágrima com tinta e papel, é ecoar o grito na página silenciosa, quer dizer com o batuque do teclado ou o reco-reco do lápis que roça a folha alcalina, indecentemente.

Tentam criar diferenças entre dois tipos de textos: os que têm destinatários e os que pensam não ter. O escritor que tenta ser destinatário está num paradoxo, numa crise de identidade, precisa de uma terapia: revelar seus textos. Essa resposta, por exemplo, é um divã, onde todos podem deitar-se, servir-se de toda a sorte de idéias, palavras e gestos, numa terapia coletiva. Sirvam-se.

Quando tenho vontade de escrever os cheiros são gostos, os gostos são toques e as cores são música, ouvir é só silêncio, pois apenas você me escuta e, assim, quase lhe toco. Escrever é compartilhar nossos sentidos incontroláveis, é avassalar os sentimentos, é colher benditos frutos, e comê-los, com a fome de quem vai ser expulso do paraíso, como quem rouba um dom de Deus. Que assim seja. Amém.

Quando escrevo os pensamentos dançam conforme a letra, abraçados, cantam ao (roda)pé do ouvido todas as sensações que não eram reais. Nos textos qualquer sensação pode ser real, a realidade é a nossa imaginação. As histórias ficam mais interessantes. O caos ganha sentido (algum), as idéias acham o seu caminho, e a cor que faltava no arco-íris pode, finalmente, ser pintada.

É uma maravilha ser, quem quer que seja, o que quiser ser ao escrever. Escrever é enlouquecer a realidade, para que ela pense que está errada e mude: aos sopapos, empurrões e palavras de ordem. Temos que compreender e mudar, para compreendê-la precisamos pintá-la, na verdade, torná-la suportável enquanto, aos poucos, ela muda. No mais, escrever é qualquer coisa que dá gosto à alma.


Texto:

“DA ARTE DE ESCREVER

Eu gosto de escrever. É um ato involuntário, não uma escolha. Um vício benéfico. Um ato terapêutico. Uma auto-análise. É a ação de liberação de sentimentos massacrados e não consumidos. É uma lágrima escondida, um grito silencioso. Digo isto porque há de se estabelecer a diferença entre o texto que se escreve para os outros e aquele que se pensa ser de aproveitamento exclusivamente pessoal. Enquadraria este na segunda opção, mesmo embora eu não esconda a vontade de veiculá-lo por entre aqueles que com ele se identifiquem. Sirvam-se.

A vontade de se escrever vem claramente aos sentidos. Posso senti-la, mas nunca controlá-la. Ela deve ser obedecida imediatamente. Rende benditos frutos e resultados, muitas vezes, avassaladores. Deve ser aproveitada como um Dom, o qual se pratica e desenvolve. Deve-se dele tirar proveito. Àqueles que o negam, devo aconselhar que o abrace. Seja uma poesia ou simplesmente um verso. Um pensamento preso no ritmo de palavras dançantes.

Escrever é como cantar, nos põem em contato com nossas sensações. Podemos descobri-las se escondidas, enfatizá-las se já expostas. Além, é claro, de nos permitir brincar com a realidade. Sob nosso comando, as histórias tomam o rumo que desejamos. É uma chance de concretizarmos ideais, pintarmos o mundo à nossa moda. Da mesma forma, ainda podemos denunciar, expormos visões e opiniões caóticas.

Finalmente, posso colocar claramente que escrevendo podemos ser e fazer o que quisermos. Isso não é maravilhoso? Que pareça loucura, pois não o deixa de ser. Afinal, a realidade deve ser pincelada com mostras de ficção para que possa ser engolida. No entanto, senhores, o que lhes mostro nessa breve homenagem à arte de escrever, é uma forma de não deixarmos que a realidade seja simplesmente engolida, mas absorvida inteligentemente para que da mesma forma possamos modificá-la. No mais, é só deixar que o "olhar para dentro" mostre os desgostos e as delícias da alma.

LEILA BARRETO.”

enviada por mim






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