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30/08/2003 16:54
Carne gêmea.
Cada pessoa é um universo, encerra em si as todas as possibilidades de amar, e ser amada. Carne, osso e sangue enunciam a sua vida. Somos seres reais, do mundo concreto, estamos aprisionados em nossos corpos materiais.
A diferença entre o cimento e nós é que ele foi criado sem consciência, e nós vamos perdendo-a pouco a pouco, temos a angústia de esperar pela morte, e enquanto comemoramos menos um ano de vida, achamos que vivemos mais.
Cada ser humano é um punhado de carne e cimento que espera a morte. No fim, nos tornamos iguais a tudo que desprezamos, ou trocamos por dinheiro, as coisas inanimadas. Outra diferença? Nós federemos! Quando baixarmos a sepultura as únicas companhias certas são os vermes e as sombras.
Ninguém, por mais amor que tenha a nós, quererá sentar-se à mesa para almoçar enquanto o corpo amado se decompõe sem vida.
Somos incomodados pelo fedor da nossa própria pele, que se definha dia após dia, pela comida que apodrece entre os nossos dentes. E a merda, que repugnamos com asco, ânsias de vômito, é produzida pelo mesmo corpo que amamos.
O vômito sai pela mesma boca onde entrará a língua. O escarro vira saliva, o cuspe é mais um lubrificante, a porra corre o caminho do mijo, um escorre pelo chão, o outro inunda o céu da boca, gozo e merda se misturam no corpo violado.
Somos carne, repugnamos o gozo, chupamos sem nojo, só o sangue mata a sede de ser humano. Os ossos nos mantêm de pé, os músculos nos prostram, as carnes gêmeas ignoram a condição humana.
Deus nos criou, e depois criamos deus, deuses maravilhosos, seres impressionantes, gênios amigos, animais mágicos, florestas encantadas, reinos míticos, a matrix, inventamos alienígenas, planetas muito influentes, estrelas vivas, cometas da paz, cadentes do desejo, por fim, iludimos com humanos maravilhosos, impecáveis, lindos, bondosos, imortais.
Destruímos os mares, poluímos o ar, bebemos coca-cola, fazemos armas de destruição em massa, jogamos bombas, alimentamos o ódio, roubamos nossos irmãos, nos cercamos do lixo, matamos os animais, cruéis, covardes, inumanos desejos, rios de chorume que se misturam às lágrimas dos que sentem na pele a vida esvair
Mentimos para acharmos-nos imortais.
Não é à toa que a instituição dos mortos rotativos é onde as pessoas se denominaram de imortais. E acreditam nisso. Acreditamos que nunca morreremos. Assim não negamos a morte, e sim a vida. Acreditamos que somos espírito, e assim ignoramos a carne que nos permite acreditar em tudo quanto é mentira.
Se há um espírito, ele habita na carne. Assim como quem quer se libertar da fome, come. Quem quer se livrar da carne ou se mata, e deixa de existir, ou vive o mundo concreto. A única liberdade é a verdade que está materialmente escrita no tempo, no espaço e no mundo criados por Deus (O que nos criou, e não O que nós criamos).
Somos, depois imaginamos mil coisas que deveríamos ser, depois achamos que somos aquilo que imaginamos, por fim não somos mais nada, apenas negamos. Até que não poderemos sequer negar. Viver sem consciência é morrer de antemão.
Precisamos nos encontrar de novo, sonhar com você só mata o próprio sonho, temos que matar nossos corpos no desejo que têm um pelo outro, antes que os vermes matem seus desejos, e o apagar das luzes seja eterno.
As almas gêmeas são ilusões que cegam as carnes frescas de desejo, amantes na realidade. Cada um de nós é um universo de cinzas onde habita uma alma, que ama. Todos somos infinitamente livres para achar que somos livres.
Mas conhecer a verdade é a real liberdade, para que o espírito seja realmente livre, para que a alma pare de perguntar se alma existe, para que o cimento de que somos feitos descanse em paz, amém.
Dizem que somos alma, espírito vivente, imortais, criados por Deus, nosso corpo é só um invólucro temporário, devemos lutar contra os seus desejos imorais, devemos desprezar a fome, passar mil perfumes
A nova cultura manda cremar os corpos, dissolver no ar as cinzas, que testemunham da morte, os novos cemitérios parecem jardins
Todos crêem em algum tipo de lugar melhor após a morte, diversos paraísos, onde todos querem ir, mas ninguém quer Agora! Agarram-se a carne que desprezam, não cuidam, não vivem, apenas cultivam ilusões medíocres. As ilusões do dinheiro, da moral da direita, da falta de solidariedade, do individualismo, da contradição, da fé na apatia.
O espírito que habita em nós, sabe que vivemos no mundo real, e que os nossos sonhos somente serão velados por sonos tranqüilos. Ou pelo silêncio da morte.
enviada por mim
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